sexta-feira, 12 de junho de 2009

Relatório - Laboratório Joline Andrade

Proposta para Laboratório

Tema
Mulher, corpo e sociedade: uma análise das danças do ventre e tribal na contemporaneidade

Objetivo
Analisar os contextos sociais em que a mulher esteve inserida, associando seus papeis na sociedade, as influências culturais de determinados períodos históricos e suas diferentes concepções de corpo, às danças como a dança do ventre e tribal, levantando problematizações diante destes entendimentos na contemporaneidade.

Justificativa
Diante das discussões de gênero e seus inúmeros levantamentos feitos no Laboratório de Corpo e Criação I, a possibilidade de reflexão das danças especificadas pôde gerar a construção de uma pesquisa teórico/prática através de embasamentos científicos que trazem noções de cultura e sociedade que focam o papel da mulher e suas transformações ao longo do tempo. Selecionar a dança do ventre e a dança tribal parece ser pertinente para estas reflexões, pois estereotipam bem os reflexos de alguns pensamentos, sobretudo contemporâneos, nas relações entre mulher, corpo e dança.

Metodologia
Apresentação de uma aula teórico/prática de cunho investigativo a partir da reflexão de específicos momentos históricos e os papeis sociais femininos particulares a estes períodos, associando suas relações entre corpo e dança às idéias de dominação (dominante/dominado) e a reverberação destes pensamentos nas danças do ventre e tribal.

Roteiro de proposições

1. Apresentação do tema;

2. Alongamento baseado na técnica do Yoga;

3. Mostra de vídeos de dança do ventre e de dança tribal (“Instruction bellydance with Jillina” e “Tribal Fusion bellydance with Rachel Brice”);

4. Divisão de três grupos para a criação de cenas a partir da observação da mostra dos vídeos e da leitura de algumas citações do livro “A sociedade de consumo” de Jean Baudrillard, do texto “De Vênus a Kate Moss: reflexões sobre corpo, beleza e relações de gênero” de Maria Mota (UFC) e do texto “Mulher, corpo e sociedade: uma análise desde o patriarcado à contemporaneidade” de Geoges Boris (UFC) e Mirella Cesídio (UNIFOR);

• Grupo 1 – Execução de uma cena de modo que a idéia do poder do corpo feminino no período matriarcal esteja inserida (corpo como poder divino).

• Grupo 2 – Execução de uma cena, com o intuito de expor a repressão da mulher e conseqüentemente do seu corpo, retratando a submissão à dominação e exploração sexual masculina (corpo como pecado).

• Grupo 3 – Execução de uma cena de maneira que a redescoberta do corpo da mulher esteja ligada diretamente ao consumo do próprio corpo (corpo como objeto de consumo).

5. Proposta de problematização diante da justificativa das escolhas estéticas das cenas;

• A Dança do Ventre na contemporaneidade pode fornecer a noção da mulher como objeto sexual? Por quê?

• O surgimento da Dança Tribal tem a ver com o desejo de apresentar a dança do ventre sem alimentar tanto aquela imagem de consumo da mulher. Esta imagem de consumo foi realmente afastada? Por quê?

• Que tipo de significação o corpo traz diante destas danças?

 Mulher, corpo e dança: liberdade e poder no período matriarcal
 Exploração sexual da mulher e negação do corpo feminino
 Redescoberta do corpo: mulher como objeto de consumo


Introduzindo

O corpo da mulher é um veículo privilegiado de beleza, sexualidade e narcisismo dirigido. Foi vista durante muito tempo como sexualidade prejudicial numa condenação moral/social que se apóia numa servidão social.

As relações entre corpo, mulher e dança podem ser vistas de diferentes formas em diferentes períodos históricos e sociedades. Pode-se pontuar três configurações válidas às discussões de gênero e sexualidade sobre a dança do ventre e a tribal: a de poder e liberdade dos corpos femininos no período matriarcal; a exploração sexual da mulher e negação do corpo feminino onde a dança e obviamente o corpo eram vistos como produtos diabolizados; e a redescoberta feminina do próprio corpo na sua adaptabilidade à sociedade de consumo.

Sabe-se que estas pontuações fazem parte de um caldeirão de acontecimentos onde inúmeras formas de relação entre mulher, corpo e sociedade foram constatadas, sendo elas não apenas compreendidas num ponto de vista cronologicamente linear, mas como escolhas específicas para o desenvolvimento deste laboratório.


Alguns levantamentos

Registros antigos apresentam o período pré-histórico (idade da Pedra Lascada) como o período em que a representação da força feminina estava diretamente ligada aos cultos matriarcais, onde a mulher era divinizada pela capacidade de gerar uma nova vida e perpetuar a espécie.

Algumas das antigas civilizações do Oriente Médio utilizavam a dança como uma forma especial de cultuar seus deuses. Observando as mulheres que davam a luz após um período de nove meses de gestação, as pessoas da época chegaram acreditavam que as mulheres grávidas estavam impregnadas, ou possuídas, pela essência divina sendo capazes de produzir uma nova vida.

A relação entre a facilidade de entrar em transe e as habilidades de dança de algumas mulheres afirmava esta ligação. De acordo com as crenças, a Grande Mãe era quem alimentava a terra tornando-a fértil para a lavoura. Nos rituais em sua homenagem sacerdotisas expunham seus ventres sagrados fazendo-os dançar, vibrar e ondular.

Percebe-se que a relação entre a dança e os corpos femininos neste período era produzida a partir da centralização do poder dada pela capacidade de reprodução e crença da divinização dos ventres responsáveis por esta ação. Desta forma as mulheres estavam à frente da sociedade e sua dança representava uma expressão de domínio perante os corpos masculinos.

No final do período neolítico, em muitas regiões, o culto da Grande-deusa foi enfraquecendo. A passagem do politeísmo para o monoteísmo coincide com o início dos preconceitos contra as dançarinas, afinal de contas elas representavam um culto antigo de uma sociedade baseada numa cultura arcaica e que já não interessava mais. A transformação da sociedade trouxe a mulher para dentro de casa e os homens descobriram que ela não era capaz de gerar um filho sozinha. De deusa, a mulher passou a ser propriedade: primeiro do pai e depois do marido. Quando gerava um filho era apenas para dar continuidade a linhagem masculina.

Na Grécia clássica a beleza era uma qualidade do corpo masculino, mas do homem rico, grego e másculo. Esse corpo era exposto nos ginásios sendo a sua nudez uma forma nobre de exaltar toda a grandeza física e beleza dos homens. Essa nudez não era permitida para as mulheres, que despossuídas de poderes públicos, eram confinadas no espaço de casa. Essa tendência estética centrada no masculino vai predominar até a queda do Império Romano quando a figura feminina e seus atributos serão então diabolizados, especialmente sua beleza física, ligada à sedução e ao prazer.

O racionalismo moderno estabeleceu as bases para a emergência da mulher como o “belo sexo”, com as representações e papeis femininos que organizam as formas modernas de subordinação e desigualdade das mulheres. A instituição da mulher como o belo sexo ocorreu no contexto de uma cultura baseada nas capacidades humanas como o trabalho e a razão, criadores de riquezas, poder e saber, restituindo as coisas do mundo como criações humanas.

A beleza física se transfigura e assume um sentido positivo na sociedade, manifestando-se como qualidade das mulheres, pois aos homens cabia o trabalho e a razão, a inteligência e a força. Essa beleza feminina continuou idealizada para o deleite e prazer dos homens. O desbaratamento da diabolização da imagem feminina ocorreu na passagem para um conceito de beleza divinizada, em que o belo era confundido com a face de Deus, e era posto como um atributo das mulheres. Mas esse processo teve seu custo.

A concepção estética filosófica do belo como feminino, extraiu das mulheres a capacidade de raciocínio e pensamento, cabendo-lhes apenas a capacidade de sentir. Assim a mulher emerge na sociedade de mercado como dona de casa e consumidora, sensível e submissa, bela e burra. Beleza essa centrada não mais na ”face de Deus”,
mas na face material das riquezas e bens que estruturam a nova sociedade.


Corpo erótico e corpo de consumo

Assim como a mulher e o corpo compartilham semelhante servidão e relegação ao longo da história ocidental, a “emancipação” da mulher e a “libertação” do corpo estão coerente e historicamente conectadas, porém não foi eliminada a confusão ideológica entre a mulher e a sexualidade.

Do Iluminismo à sociedade de consumo, a beleza feminina passou por uma atribuição relacionada à conduta moral, para quem a mulher ao longo desses séculos, teve seu corpo sujeito às prescrições sociais, que transformaram sua imagem conforme os valores dos grupos sociais aos quais pertencia. Esta beleza feminina tem sido produzida com sacrifícios, relacionando-se a adequações, modificações e montagens de uma figura (irreal) para a sedução. Significando a criação de um corpo, que deve
personificar o belo, para as emoções e prazeres do desejo masculino.

A negação do corpo e a exploração sexual da mulher encontram-se situados sob o mesmo signo, pretendendo este que toda a classe explorada e, conseqüentemente ameaçadora, adquira uma definição sexual.

Tudo aquilo em que cujo nome se realiza a emancipação institui-se em sistema de valores de “tutela”. Valores irresponsáveis que orientam ao mesmo tempo valores de condutas de consumo e de relegação social. De tal modo a exaltação e o excesso de honra impedem a responsabilidade econômica e social real. (BAUDRILLARD, 1991, p.146)

No mundo ocidental, por vários motivos, a dança do ventre ficou conhecida como uma arte ligada à sedução e à sexualidade. Isso pode ter várias origens: desde os marinheiros britânicos que chegavam a Port Said no Egito por volta do século XIX e iam aos cabarés onde assistiam as exóticas apresentações, até as apresentações de Mata Hari que encantaram e assustaram toda a Europa no começo do século XX. Há também relatos de que algumas mulheres usavam a dança como forma de sedução em troca de favores pessoais.

As mulheres, os jovens e o corpo, cuja situação crítica após anos de servidão e de esquecimento vêem-se integrados e reconstruídos como o “mito da emancipação”. O círculo vicioso da emancipação dirigida que se reconstrói para a mulher é espantoso, pois através do conflito entre a mulher e a libertação sexual consegue-se
neutralizar ambas de forma recíproca.

Um dos mecanismos fundamentais do consumo é a automatização formal de grupos, de classes e de castas (e do indivíduo) a partir de e graças à automatização formal de sistemas de signos e de funções. (BAUDRILLARD, 1991, p.146)

Como já foi dito a pouco, pensar na dança do ventre como forma de sedução e erotização da mulher na contemporaneidade não é algo admirável, principalmente se estiver sendo vista por olhares ocidentais, logo, na cultura árabe, a dança não está relacionada a este princípio. É uma manifestação cultural onde a fertilização dos ventres parte da dança em que as mulheres aprendem desde crianças.

Segundo Baudrillard, existem várias discussões sobre a explosão sexual e o crescimento do erotismo. Juntamente com a sexualidade, a sociedade de consumo aparece, determinando toda a dominação das comunicações em massa. Tudo que se apresenta para ser visto e ouvido assume uma vibração sexual, porém é óbvio que ao mesmo tempo é a sexualidade que se propõe ao consumo.

A dança tribal desde sua formação viu-se diante da evidência de sua mesclagem. É uma modalidade de dança que tendo como base a dança do ventre, funde arquétipos, conceitos e movimentos de danças étnicas das mais variadas regiões, como o Flamenco, a Dança Indiana e danças folclóricas de diversas partes do Oriente, desde as tradicionais manifestações folclóricas já bem conhecidas pelas bailarinas de dança do ventre às danças tribais da África Central, chegando até mesmo às longínquas tradições das populações islâmicas do Tajiquistão. É relativamente recente no mundo da dança, mas bebe na fonte de diversas culturas antigas e mistura tudo numa alquimia de tom contemporâneo.

Surge numa tentativa de recriar o que poderia ter acontecido, mas havia diferentes tribos, principalmente nômades, e não há qualquer documentação (não há fotografias ou pinturas, nem mesmo escritos) com o que realmente existiu. Provavelmente as mulheres de muitas destas tribos foram influenciadas por outras culturas que
entraram em contato com elas durante as suas viagens nômades.

A idéia de fusão pode ser vista como um processo de tradução cultural seguido da assimilação de informações que são semelhantes entre as danças envolvidas. A tradução das danças para as formas familiares é acompanhada de um conjunto de dispositivos de imitação. Com o entendimento da possibilidade de “empréstimos” e “adoções” de signos, o processo de adaptação pode ser considerado como um movimento duplo de des-contextualização e re-contextualização, retirando um item de seu local original e modificando-o de forma que se encaixe em seu novo ambiente.
Como todas as culturas, existem locais específicos que são favoráveis à troca cultural, especialmente as metrópoles e as fronteiras.

Sempre que ocorre uma troca cultural, se pode falar metaforicamente de “zona de comércio”. Um local importante de troca é a metrópole, local tanto de comércio quanto de cultura, onde pessoas de diferentes origens se encontram e interagem. Nova York, Lagos, Londres, Los Angeles, Bombaim e São Paulo são exemplos contemporâneos evidentes. (BURKE, 2006, p. 70)

Todo este comércio de informações trouxe à dança um caráter de consumo por ter sido difundida através dos meios de comunicação em massa. A propagação da dança através das produções audiovisuais e sua divulgação nos meios virtuais de comunicação (internet) fizeram parte deste processo de comercialização.

Aquelas mulheres que antes “temiam” a execução de uma dança com rotulação sexual como a dança do ventre viram-se diante da alternativa de tentar recriar uma dança onde seu corpo pudesse expressar seus prazeres pessoais, não voltados para uma dominação masculina. A mulher que era escravizada pelo sexo encontra-se na sociedade democrática moderna libertada perante o sexo, mas na medida em que se libertava confundia-se cada vez mais com o próprio corpo.

A tentativa de afastamento do julgamento erótico, antes significativa no surgimento da dança tribal, foi substituída pela “febre” comercial trazida por esta modalidade no universo da dança. Virou “moda” e por mais que houvesse o anseio pelo afugentamento do caráter sexual, a vivência das bailarinas em sociedades capitalistas possibilitou sua adaptabilidade neste meio.

A definição histórica do consumo é a movimentação dos sinais com base na recusa das coisas e do real. O mais belo objeto de consumo é o corpo, corpo aquele visto como capital e como feitiço (ou objeto de consumo) que deixa de ser “carne” (religião) e
força de trabalho (indústria) e passa a ser beleza e erotismo.

A beleza se tornou para a mulher uma necessidade absoluta e religiosa, e juntamente com a sexualidade, orienta a redescoberta e o consumo do corpo. A redescoberta do corpo num ponto de vista auto-reflexivo transformou a dança do ventre no mundo ocidental, sobre influência da globalização e erotização feminina, numa dança onde a mulher assume o papel de objeto sexual masculino, dominante e submissa (a arte da dança pode ser compreendida de outra forma caso os sujeitos da ação, ou seja, corpo(s) que dança(m) e corpo(s) que aprecia(m) permaneçam imersos na dança sem levantar pensamentos erotizados diante da mesma) e a dança tribal, na experiência de rejeitar este enfoque, caiu nas “garras” do consumismo.

Nem tão sagrada, nem tão profana, as danças do ventre e tribal são hoje técnicas desenvolvidas para o corpo feminino.



Referências

BAUDRILLARD, Jean. A Sociedade de Consumo. Lisboa, 1991.

BENCARDINI, Patrícia. Dança do Ventre: Ciência e Arte. São Paulo. Texto Novo, 2002.

BORIS, George & CESÍDIO, Mirella. (2007). “Mulher, corpo e sociedade: uma análise desde o patriarcado à contemporaneidade”. Disponível em: . Acesso em 18/05/2009.

BURKE, Peter. Hibridismo Cultural. (L. S. Mendes, Trad.) Unisinos, 2006.

GRUZINSKI, Serge. O Pensamento Mestiço. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

MOTA, Maria Dolores de B. (2007). “De Vênus a Kate Moss: reflexões sobre corpo, beleza e relações de gênero”. Disponível em: . Acesso em 18/05/2009.

PHOENIX, Holly. (2008) “History of Tribal Fusion Belly Dance”. Disponível em . Acesso em 17/05/2009.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Link para video do experimento "Discursos Habitam Corpos"

Caros colegas,

É com muita satisfação que, depois de muitos dias de peleja com o Windows Movie Make consegui editar, gravar o monitor e levar 14h para inserir o video do meu experimento no youtube.

Obrigado pela contribuição de cada um de vocês para a minha pesquisa e espero estarmos juntos no próximo semestre. Bjs

http://www.youtube.com/watch?v=hBpMu0oiatg

domingo, 7 de junho de 2009

Relatório - Laboratório proposto por Thiago Assis

Universidade Federal da Bahia
Laboratório de Corpo e Criação Coreográfica
Docentes: Antrifo Sanchez e Fernando Passos
Discente: Thiago Santos de Assis

Relatório de Experimentação


Apresentação

A pesquisa aqui apresentada foi realizada por um estudante do curso de Licenciatura em Dança, no âmbito da disciplina de Laboratório do Corpo e Criação Coreográfica, na UFBA, ministrada pelos professores Antrifo Sanchez e Fernando Passos, sendo esta escrita utilizada como crédito para a validação do curso anteriormente citado. Para chegar à escolha do objeto e objetivos de meu experimento promovi algumas discussões sobre as questões de gênero, assunto plausível de uma observação mais detalhada, quando equacionando, com as áreas da educação, da dança, de questões sociais e políticas. Porém, o fato de ser em Dança a minha graduação, me fez privilegiar um objeto próximo deste contexto. Direcionei então meu olhar para os “Estados Configurativos dos Corpos” e seus impactos em um dado contexto social. Dessa forma, estruturamos as mais diversas imagens, projetando corporeidades distintas, e refletindo sobre os resultados obtidos, os quais hoje servem como mola propulsora para essa formalização parcial.


Justificativa

Este experimento justifica-se na necessidade de promover estudos mais profundos acerca das discussões sobre gênero, pois em tempos de pós-modernidade, se faz necessário suscitarmos tais discussões, quando concatenadas com as múltiplas reflexões que corroboram com as rupturas dos paradigmas socialmente construídos em nossa diacronia.


Objetivo Geral

Compreender que a discussão sobre gênero não deve ser pautada apenas no binômio masculino / feminino. Entendendo que no trânsito entre esses opostos, existem diversas concepções que burlam o determinismo heteronormativo.


Objetivos Específicos

Projetar diversos “Estados Configurativos” em espaços sociais e analisar as ações esboçadas pela alteridade concomitantemente.

Desmontar estruturas heteronormativas arraigadas em um pensamento reprodutivo.

Examinar o conceito de “Identidade”, a partir da relação entre sujeitos e ambiente.


Procedimentos Metodológicos

O nosso experimento foi didaticamente dividido em dois momentos, sendo o primeiro, pré-requisito para o entendimento mais amplo das intervenções posteriores (trabalho de campo).

A proposta desse laboratório foi expositiva e dialogada, sem muitas delimitações. A intenção era estimular o processo criativo individual, a partir das indicações dadas pelo mediador.


Roteiro Descritivo

O primeiro momento do nosso laboratório, ocorreu no dia 15 de maio de 2009 (sexta-feira), na Escola de Dança da UFBa, contando com a participação dos seguintes voluntários:

• Nathália Matos
• André Luís
• Diego Victorino
• Loraine Brito
• João Miguel
• Carolina Falcão
• Antrifo Sanches

- Propus que os voluntários sentassem em circulo, e sem movimentos aparentes, trabalhassem apenas com a ação de “olhar”, de forma que eles buscassem mutuamente reconhecer os outros sujeitos envolvidos naquele contexto. Foram dadas muitas indicações, como exemplo:
* Liberar as sensações ocasionadas com o processo corrente.
* Olhar para o outro e deixar-se ser olhado por todos.

- Em um segundo momento eu sugeri que todos tirassem as roupas, permanecendo somente com as peças íntimas, na tentativa de anular alguns códigos culturais que apóiam uma “cristalização do individuo”. Dessa forma eles retornaram ao círculo e continuaram sem movimentos aparentes, e trabalhando somente a partir do olhar.

- Em seguida, eu distribui alguns verbos retirados da Taxionomia de Bloom de Habilidades do Pensamento e solicitei que eles se colocassem em dupla, e se colocassem na condição de observador e observado ao mesmo tempo, além de com o olhar transmitir as habilidades do pensamento (apud. Bloom 1956. ) que seriam:

Definir / examinar/ associar /completar/ comparar/ criticar/ convencer/ rotular/ resumir/ medir/ inventar/ modificar/ generalizar/ explicar/ construir/ mostrar/ aplicar/ identificar.

- Após essa interação entre as duplas, eu solicitei que todos fossem até o espelho e frente ao mesmo, projetassem o olhar (ainda com a idéia das habilidades do pensamento) para si mesmos e percebessem o quanto cotidianamente somos ativos / passivos nessa relação.

- A partir de todas essas proposições embasadas no olhar, eu trouxe quatro imagens e as projetei para que os voluntários, olhassem e rapidamente definissem pequenos aspectos sobre o que foi mostrado, como: sexo, orientação sexual, estilo e profissão. A partir dessa proposição surgiram diversos conceitos sobre uma mesma imagem, o que comprova que o nosso olhar é individualizado e sempre está ancorado em nossos axiomas. Por fim, eu revelei para o grupo a “identidade” de cada individuo mostrado nas imagens, e o que foi muito relevante, é o fato de um mesmo sujeito aparecer em duas imagens distintas, com “estados configurativos” totalmente diferentes, e todos os voluntários considerarem o mesmo sujeito como duas pessoas, comprovando que imagem e corpo são sistemas equivalentes, pois cada imagem reverberada por um mesmo corpo, pode provocar significados variados e até mesmo a anulação de uma imagem por outra.

- Após esse momento que tantas inquietações nos causou, exibir para o grupo um vídeo norte americano chamado “Children se, Children do”. Que traduzido para o português quer dizer: “Crianças vêem, Crianças fazem”, com a intenção de deslocar a nossa discussão que até então tinha perpassado diretamente apenas por reflexões sociais, para o contexto educacional, no qual o exemplo tem significados muito presentes no processo de ensino e aprendizagem, auxiliando na construção do “eu” a partir da dinâmica entre os sujeitos e ambientes.

- Finalizamos a primeira etapa do nosso laboratório, com a leitura de um texto autoral, no qual eu reafirmava questões que nos acompanharam ao longo dessa etapa. E lancei também a seguinte questão:

“O que vocês já fizeram em um espaço público que com certeza chocou as pessoas presentes?”.

Com base nas respostas do grupo, construímos juntas as cenas que figuraram a nossa intervenção.

No segundo momento, após a elaboração dos mais diversos “estados configurativos”, fomos a campo a fim de finalizarmos a nossa proposta de trabalho. Escolhemos o Shopping Piedade, por todo o seu trânsito de pessoas das mais variadas camadas sociais, e por atender as necessidades específicas que o nosso laboratório demandava.
Ao chegarmos nesse espaço, nos espalhamos para que a intervenção não ganhasse um caráter espetaculoso, pois isso a tiraria do lugar performativo que havia sido engendrado anteriormente. E obedecendo a dinâmica anterior, os voluntários desenvolveram suas ações e ao mesmo tempo em que eram observados, se colocavam na posição de observadores.
As cenas obedeceram ao princípio da “economia de elementos espetaculosos”, no entanto utilizamos figurinos que colaborassem com o “estado configurativo” que aqueles corpos executavam, na tentativa de manipular as variáveis da pesquisa e garantir os impactos sociais que buscávamos. Foram inúmeras as cenas, mas destaco aqui somente as que mais contribuíram para essa análise:
- Um grupo de três mulheres que conversavam nos espaços do shopping e falavam sobre sexo de uma maneira muito coloquial, falavam sobre masturbação, experimentações, relações homoafetivas, entre outros, que naturalmente despertou a curiosidade do entorno, levando ao esboço de ações carregadas por censuras.
- Um casal aparentemente no padrão social heteronormativo, ou seja, um homem e uma mulher, mas com os papéis subvertidos, tendo as suas configurações borradas por códigos diferenciados dos socialmente construídos. Essa proposição provocou muito as pessoas do shopping, tendo até sido observada algumas ações violentas contra aquela imagem por nós idealizada.
- Um homem com “roupas masculinas”, mas que andava no shopping com um sapato alto, e mesmo a configuração sendo culturalmente masculina, a justaposição de um código que não correspondia aquele “padrão”, foi rapidamente execrada.


Avaliação

A avaliação se deu de forma processual, de maneira que em todas as nossas ações metodológicas, refletíamos sobre a práxis, e isso de certa forma já se configura como um processo de avaliativo. Considero que tangemos nos diversos aspectos desse processo, pois diagnosticamos os entendimentos do grupo sobre o tema proposta, bem como ao longo do processo fizemos algumas interações formativas.
Com base no desenvolvimento desse laboratório, eu considero importante algumas questões que ficaram perceptíveis com o processo. É preciso ter muito cuidado com a tendência natural que temos de projeção do outro, a partir de nós mesmos, isso é algo perigoso que nem sempre corresponde ao resultado esperado, pois quando as variáveis dependentes da pesquisa, são sujeitos, a manipulação é pouco provável. Percebo que algumas ações elaboradas pelo nosso coletivo, não causaram os impactos esperados, pois as pessoas presentes no Shopping não se chocaram com as mesmas. No entanto, acredito piamente que todos os objetivos foram alcançados, e isso respalda o nosso estudo como proficiente. Sabemos que muitas questões surgiram a partir desse processo, mas não teríamos jamais a pretensão presunçosa de esgotá-las. Concluímos o nosso laboratório com diversas lacunas a serem discutidas em momentos posteriores.


Referências:

- FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da paixão. Trad. Ligia Pondé Vassalo. 6 ed. – Petrópolis: Vozes, 1987.
- FARR, ROBERT. M. As Raízes da Psicologia Social Moderna. RJ, Vozes. 2008
- BOCK, Ana M. Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes T. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. 3.ed. São Paulo: Saraiva, 1989. 284 p.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

"Os discursos habitam corpos" - experimento proposto por Evie Souto

A PROPOSIÇÃO


A concepção binária e naturalizada da humanidade é uma disposição do mundo moderno. Ser sexuado é estar submetido a um conjunto de regulações sociais situado como principio formador do sexo, gênero e desejo.

As danças de salão são configurações binárias em suas coreografias e discursos. Tradicionalmente executadas por duas pessoas do sexo oposto, onde pertence ao homem o poder de decidir sobre a seqüência de movimentos, sua forma rítmica, direção e velocidade de deslocamento. A mulher deve estar apta a compreender as solicitações do seu parceiro, desenvolvendo os movimentos correspondentes.

O formalismo glamoroso das regras de etiquetas tem preservado a erotização da dominação masculina e as hierarquias de gênero nas danças de salão. Romper e construir novos significados para os gêneros, deslocar a sexualidade da matriz heterossexual é estar em risco.

Para a Teoria Queer, o socialmente real é criado por atos de repetição dos sujeitos, concebidos como efeito de uma multiplicidade de processos de socialização, onde obtêm a sua condição "masculina" ou "feminina" como produtos histórico-sociais.

A palavra queer designa algo ou alguém desestabilizador da ordem social estabelecida. Esta pesquisa propõe investigar as estratégias binárias nas coreografias e discursos das danças de salão que criam e sustentam seu modelo masculinista e heteronormativo de poder, buscando frestas para desestabilizá-lo.

O EXPERIMENTO

1. Alongamento livre (10’)
2. Distribuição dos discursos aos participantes, solicitando sigilo absoluto sobre o conteúdo dos mesmos (5’);
3. Exibição de vídeo sem áudio editado com trechos de coreografias de forró, tango, mambo, lambazouk, bolero e samba de gafieira para observação das estratégias coreográficas utilizadas (15’);
4. Experimentação coreográfica dos discursos: iniciar caminhando individualmente pela sala. Ao comando DUPLA formar um par e improvisar uma dança a dois, considerando o discurso recebido. Ao comando SOLO voltar a caminhar individualmente pela sala. Promover troca de duplas até que todos dancem com todos, se possível (25’);
5. Para cada participante solicitar a opinião do grupo sobre como foi dançar com ele(a) e especular sobre qual seria o seu discurso e as estratégias coreográficas utilizadas por ele(a). Após opinião do grupo o participante revela o discurso recebido e os recursos coreográficos escolhidos para representá-lo (tempo máximo estimado 35’).
6. Leitura dos trechos para reflexão e abertura das discussões em grupo (até 40’).

OS DISCURSOS

Foram selecionados 17 discursos coletados de falas verídicas de praticantes das danças de salão durante festas em Salvador, havendo sofrido pequenas adaptações para melhor compreensão dos mesmos. Das quatorze pessoas presentes, doze dançaram e dois observaram (Fernandinho e Natália Rosa). Seguem abaixo os discursos na íntegra e seus respectivos intérpretes:

1. Inicialmente me deixo conduzir. Entretanto, fico atento aos momentos propícios para roubar a condução sem aviso prévio, devolvendo-a quando estiver satisfeito e ver como o outro reage a este “imprevisto”. (Alana)
2. Nas danças de salão a condução sempre pertenceu ao homem e é assim que deve continuar sendo. Mulher que se mete a conduzir na dança é porque quer dar uma de homem. (Diego)
3. A mulher no baile é uma espécie de rainha, de diva: joga o cabelo, insinua-se, provoca. O homem pode responder com um atrevido avanço de quadril. A ousadia é a marca do macho; mostrar poder e dominar a cena é a da fêmea.(Simone)
4. Só me deixo conduzir por homens ou por mulheres vestidas de homens. (Mayana)
5. Só conduzo mulheres, pois se tentar conduzir um homem e der errado e a culpa vai ser minha. (Maria Paula)
6. A idéia de ser conduzido o tempo todo por alguém de forma silenciosa, sem ter direito de propor também o que eu tenho vontade me oprime. Me sinto usado. (Joélia)
7. Exijo que pessoa que estiver dançando comigo esteja atento às minhas vontades. Caso contrário encontro uma maneira discreta de sabotar a dança para que meu par se sinta culpado pelo erro que eu provoquei. (Ana Flávia)
8. Nas danças de salão o homem, por mais gay que ele seja, não deve ficar inventando muita coisa: nada de rebolar muito, desmunhecar, jogar cabelo...Seu papel é se manter firme para que a mulher não se desoriente. (Victor)
9. Tem movimentos que são exclusivamente femininos. Quando um homem tenta fazê-los fica meio gay, parece que quer competir com a mulher para ver quem aparece mais. (Joline)
10. Na dança de salão, o homem tem uma série de obrigações, como cuidar da mulher, planejar o rumo, variar os passos, segurar com firmeza e orientar delicadamente o corpo de uma mulher. A mulher fica mais livre para desfrutar o baile, basta escolher um bom parceiro que a faça brilhar. (Antrifo)
11. Mesmo sendo homossexual não sinto falta de dançar alguém do mesmo sexo que eu, pois gosto é da junção de dois corpos diferentes para uma proposição. (André)
12. Nas danças de salão existe um dialogo aonde um conduz e o outro permite essa condução, contando que seja definido antes quem vai conduzir quem. (João Miguel)


OBSERVAÇÕES

Este experimento estava previsto para acontecer no dia 18/05. Mas, devido às fortes chuvas que assolaram a cidade, aconteceu no dia 25/05, após do de Joline. Dessa forma, achei não haver necessidade de novo alongamento e iniciei com a distribuição dos discursos. Embora solicitado silêncio durante a exibição do vídeo, a concentração foi quebrada algumas vezes pelo grupo, provavelmente devido a agitação do laboratório anterior.

Durante a experimentação coreográfica em duplas pode observar a utilização de alguns movimentos exibidos no vídeo. Atribuo o estado de agitação dos participantes-dançantes à agitação do experimento anterior, pois na maior parte do tempo pareciam estabelecer uma relação de conflito ao invés de parceria. Devido à preocupação com o tempo, não foi possível todos dançarem com todos.

Na etapa seguinte formou-se uma roda, e elegi um integrante, perguntando ao grupo como foi dançar essa pessoa, se era possível deduzir qual o discurso que havia recebido. Após as opiniões do grupo, o participante em questão lia em voz alta o discurso recebido. Um a um os participantes-dançarinos foram avaliados pelo grupo e revelando seus discursos. Ainda em rodoa li os trechos que selecionei da minha pesquisa bibliográfica e lancei a pergunta “Quais brechas poderiam ser utilizadas para desestabilizar a hierarquia de poder no contexto das danças de salão?

Avalio o experimento como satisfatório, apesar de resultados inesperados como a aparente rivalidade entre as duplas. Observei ainda que algumas pessoas não conseguiram agir conforme de acordo com o discurso recebido, imagino que devido á grandes diferença entre este e o seu próprio. A relação discurso verbal e coreográfico não foi investigada de forma satisfatória tanto pela escassez de tempo como pelo direcionamento dado por mim. A leitura dos trechos poderia ter sido suprimida, visto que não devem ter feito muito sentido para mais ninguém do grupo além de mim.

domingo, 3 de maio de 2009

RELATÓRIO DE PRÁTICA proposta por Ana Flávia – dia 15/04/09

RELATÓRIO DE LABORATÓRIO - DIA 15/04



A PESQUISA


Tema - "Batom vermelho não!"


Proposta de investigação - Estudo do estereótipo feminino na Igreja Assembléia de Deus e sua produção de signos. O presente laboratório trabalhou com a perspectiva do signo comumente visto na figura mulher asembleiana que é a saia longa e os mecanismos de locomoção e burlação das limitações/possibilidades oferecidas por este elemento.




A presente proposta surgiu de uma inquetação durante a seguinte circunstância: Ao se arrumar para apresentação de uma coreografia na Igreja Batista dos Mares cuja a temática do trabalho era dança flamenca as integrantes do Grupo Karisma se mostraram resistentes a idéia de usar batom vermelho por julgarem o mesmo "vulgar". Esta resistência ao batom me fez refletir que outros signos são entendidos ou não por vulgar e em que espaço se dá esta construção no imaginário coletivo.


Para tal observação, passei a listar alguns elementos que mulheres da Igreja Asembléia de Deus usam tipicamente fazendo uma breve ressalva de que o segmento doutrinário da Assembléia de Deus mencionado neste estudo seria de uma linha mais tradicional haja vista que a doutrina evangélica tem passado por uma série de mudanças em suas configurações originárias do calvinismo e luteranismo para atender a uma série de demandas cada vez mais complexas e distintas.


O estereótipo da mulher selecionada para estudo usa saia longa, cabelos presos em conque ou trança, não faz uso de maquiagem ou bijuterias mais chamativas ou qualquer tipo de apelo que venha a chamar a atenção para si.


O LABORATÓRIO


O laboratório fez uso de um único signo dentre o universo de elementos oferecidos por este estereótipo que foi a saia comprida, por esta ser um elemento facilmente reconhecido na figura feminina da Igreja Assembléia de Deus.


Para sistematizar o laboratório foi segmentado em seis partes nas quais foram sendo apresentadas paulatinamente as etapas da proposta que iam se complementando passo a passo. Segue abaixo a descrição de cada parte do laboratório, seguido de trecho em vídeo ou link do youtube em virtude da extensão do arquivo que não coube no blog.


Parte I

Foi solicitado ao grupo a realização de um livre aquecimento na barra a fim de preparar o corpo de forma individualizada seguindo as necessicidades de cada um para a proposta seguinte.


Parte II
Cada um deveria criar uma partitura coreográfica de oito tempos livremente.
http://www.youtube.com/watch?v=F9LOu2jEQNA


Parte III
Fazendo uso dessa partitura coreográfica, cada integrante deveria vestir a saia e adaptar a partitura a este novo elemento e apresentá-la individualmente.
http://www.youtube.com/watch?v=vBknIvyt_sE


Parte IV
Uma vez adaptada a saia, esta partitura deveria ser modificada sob a seguinte condição: NÃO EXPOR MEMBROS INFERIORES ALÉM DOS PÉS.Uma vez adaptda a partitura deveria ser novamente apreciada.
http://www.youtube.com/watch?v=gc_puwv-oA0


Parte V
A partir desta construção os integrantes deveriam atribuir segundo o entedimento pessoal aspectos sensualizantes a esta partitura.
http://www.youtube.com/watch?v=Ds2fiQ15bjM&feature=channel


Parte VI
Findado o processo o grupo reuniu-se para comentar o laboratório e oferecer um feed back a respeito.

OBSERVAÇÕES

O presente laboratório permitiu observar alguns aspectos e consolidá-los com informações previamente articuladas em campo observando mulheres assembleianas durante cultos.
Primeiramente pode se observar o estabelecimento de um relacionamento entre o ser e o objeto em ambas as circunstâncias sendo que enquanto a mulher da Assembléia de Deus busca minimizar o quanto possível os movimentos da saia, seja em seus passos curtos, na ausência de gingado nos quadris ou no cruzar de pernas, os corpos do laboratório buscaram criar o maior número de movimentos possíveis à saia.
Uma vez proposto condições próprias do cotidiano dessas mulheres como a limitação em não expor membros inferiores foi notória a idéia de limite. A partir dessa perspectiva as partituras coreográficas sofreram recortes, ficando limitadas aos membros superiores e perdendo movimentos antes usados frente a esta nova possibilidade.
Por fim ao solicitar que estas partituras recebessem caracteres sensualizantes ainda sob a proposta de não expor membros inferiores nova informação se cruzou com a realidade de campo: as expressões faciais tem legitimidade nesses espaços em que outras partes do corpo não são contempladas.
Findado o laboratório os comentários suscitados em grupo reforçaram as observações realizadas ao longo do laboratório permitindo dizer que cada mecanismo de limitação estimula novas possibilidades que levem a burlar este sistema o que permite tirar o fardo do estereótipo estudado ser somente um mero agente passivo de sua realidade e lhe percebendo como atriz e autora de mecanismos próprios de afirmação de sua condição sexual.

O outro

Olá pessoal!

Segue abaixo texto e link do vídeo no youtube do poema de Mário de Sá Carneiro musicado por Adriana Calcanhoto chamado "O outro" mencionado no laboratório de Diego no último dia 27/04 - Segunda-Feira.

Bjos
Ana

http://www.youtube.com/watch?v=CHwPgxTIK5E


O Outro

Eu não sou eu,
Nem sou o outro
Sou qualquer coisa de intermédio
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro

RELATÓRIO DE PRÁTICA proposta por Alana – dia 22/04/09










































































































RELATÓRIO DE PRÁTICA – dia 22/04/09

(Devido à impossibilidade de levar-se os materiais tecnológicos necessários num dia de muita chuva na cidade, este laboratório não contará com uma produção posterior de DVD, já que não pôde ser filmado.)

Sobre o formato

O laboratório proposto por mim, Alana falcão, consistiu num extenso compartilhamento teórico que precedeu a proposição de experiências preparatórias para a composição coreográfica.Apostei num aprofundamento do tema como estratégia problematizadora das questões no corpo para a cena.

Sobre o seminário

O tema “mulher e sertão” foram tratados da seguinte maneira:
· Justificativa: meus interesses autobiográficos em brasilidade (ou na construção desta) analisados a partir de minhas relações de parentesco. Neste caso específico, a figura de minha avó, sertaneja, rezadeira. É de interesse legítimo, observar como a cultura está sempre transformando estas relações, que desde sempre estão imersas naquela.
· A invenção do nordeste: passando por alguma breve fundamentação histórica, destaco os discursos (e seus interesses) que compõem a noção de sertão e sua justaposição ao termo nordeste, desde os primevos relatos médico-sanitaristas em seu caráter etnográfico não flagrado, e a substituição deste discurso higienista por um discurso sociológico implementado pelos intelectuais da elite nacional interessadíssimos na pintura de algo “genuinamente tupiniquim”,a fim de se legitimar como aristocracia local e afastar-se dos modelos colonizadores, europeus e norte americanos.
·
* Vimos anteriormente que nas primeiras viagens pelo interior do nordeste, nas primeiras décadas pós instauração da república, nas descrições por serem relatos médicos, imperava uma semiologia médica pretensamente objetivista que referia-se ao sertão como espaço físico claro e delimitado, naturalizando o termo, desconsiderada portanto, sua gênese e a alta carga simbólica a ele associada.

Nação e Narração: a partir das premissas de Eric Hobsbawn e Homi Bhabba, discutimos o caráter performativo da construção de Nação. Para o último, há um desejo comum a todos de indicar e compreender configurações de localidade e temporalidade da nação. E esta é uma invenção, uma criação social tecida por narrativas. A narrativa portanto é a estratégia de construção de sentido para que tenhamos essa noção de compartilhamento de geografia e tradições (chamada por ele de geografia imaginada) e tais estratégias linguísticas compõem-se de imagens, panoramas e cenários, os quais procuram estabelecer uma experiência de pertencimento coletivo, realçando uma “origem comum”. No caso do Brasil, essas configurações desenharam uma categoria de espaço*, o sertão, como forma principal de falar, definir e delimitar a nação. O projeto de nação no Brasil tem como fundamento a territorialidade. Encantado com a imensidão territorial ou atormentado pela existência de gigantescos vazios, a imaginação social se volta para o sertão ora como problema a ser solucionado, ora como índice de brasilidade. Estabelecido como categoria central no processo de invenção do Brasil, o sertão se configura no “signo da nação incabada”.
· O sertão e suas representações: constituiu-se em rápida análise das representações sertanejas. Na literatura pode –se observar Jeca Tatu de Monteiro Lobato, “ Os sertões” de Euclides da Cunha, “Vidas Secas” de Graciliano Ramos e a obra de Guimarães Rosa, como um todo. No cinema há o icônico “Deus e o diabo na terra do sol” de Glauber Rocha numa produção mais polifônica, intertextual, há também “Abril despedaçado”, “O céu de Suely” de Karim Ainouiz, “Central do Brasil” de Walter Salles e “Baixio das Bestas” de Cláudio Assis. Na dança encontrei “Bull dancing – o urro do Omi boi” de Marcelo Evelin, além de “Baque” da cia. De danças de Diadema. Dessas representações emergem de forma geral imagens que o sertão evoca no imaginário coletivo; ele está relacionado a um “ nós” arcaico, primitivo, e por isso talvez, tido como nosso pedaço de origem (principalmente, por se achar intocado, em relação aos colonizadores); ensejando imagens de deserto, de vazio, com um tempo dissonante do tempo cotidiano da urbes. O sertão como o nosso elo primitivo, como objeto de desejo, fantasia de lugar e origem, ora como sítio distante,atrasado e incivilizado, terra desolada ou paraíso perdido.
Só a título de esclarecimentos, o espetáculo Bull Dancing – o urro do Omi boi, trata do auto do boi-bumbá, que tradicionalmente narra a história de Catirina,grávida de um filho que nunca nasce, deseja comer a língua do boi. Importante atentar para um detalhe descoberto depois: com quase dois séculos de existência, o auto do boi até pouquíssimo tempo atrás não contava com a presença de mulheres, até a própria Catirina era feita por homens “montados”, já que “mulher não podia virar boi”. Neste trabalho a emergem questões nunca abordadas quando o assunto é “de raiz”, como a sexualidade ou o desejo, por exemplo, nos faz ver que a cultura popular pode muito mais do que o que habitualmente se faz em seu nome. O bumba-meu-boi passa a ser tratado como uma metáfora da vida em sociedade. Humanos-bois, omi boi, boi/humanos-aos-pedaços - são várias as aproximações propostas, trata inclusive das posições sociais da mulher nesse universo.
Elenquei previamente dentro do campo imagético sertanejo algumas palavras para guiarem o laboratório, foram elas: gado morto, terra rachada,chão, ossos de bois, beatas, cangaço, messianismo, seca, lata d´água na cabeça, narração, calor.

Proposição cênica 1 – descrição de procedimentos

Dei muito crédito à maneira que os laboratórios anteriores estabeleceram suas conexões a partir de uma tal “seqüência prévia que cada pessoa, por ventura já possua” e desta, advirem as transformações. Este modus operandi, que de antemão considera o repertório pessoal me garantiria de partida, uma diversidade nos resultados. Solicitei dos meus colegas que, deste material de movimentos dos quais eles dispusessem, retirassem um ou dois oitos para serem trabalhados. Definidas as seqüências particulares, eu pedi que à sua maneira, cada um tentasse nordestinizar o material de que dispunha e se pudessem me descrevessem a estratégia de “nordestinização” da seqüência ao apresentarem-na. O meu interesse era observar como o imaginário de sertão se manifestava para as pessoas nos seus atos cênicos, se estaria presente na dilatação do tempo, ou numa instauração do calor pela expressão facial, ou pelo tolhimento da mobilidade, enfim, eu tinha mais ou menos essas expectativas.
Coisas superinteressantes surgiram; para não me alongar com descrições inócuas particulares destaco alguns pontos chave: o fator agrário esteve presente, em algumas composições, como no caso de Evie, que transformou uma passagem de braços em uma menção ao plantio de algo, e ao uso de terço; para Mayana , por exemplo, a seqüência inicial foi um trecho de Skerzzio de Isadora Duncan composto por saltos e pulos com cabeça e olhares bem definidos e na passagem para a versão exigida, todos os pulos foram retirados e deles só restou a menção dos braços e cabeça, transformada num “estender roupas” ou seja, sua composição de nordeste denotava algo fraco, frágil, pouco, movimentos contido ao extremo e alinhamento postural curvo, linha de olhar baixo sempre, tudo muito “dona-de-casa” e também muito solene, assim como a versão de Maria Paula. Já Joline, Loraine e Joélia reconstruíram suas seqüências em cima do dado festividade, aproveitaram de algum modo a cadência do xaxado e os pulos com uma “alegria pobrinha” de morta fome. Joline, e Carol se aproximaram nos resultados pela descoberta da barriga para dentro, barriga de fome que esculpe os ossos; no caso específico de Carol, ela fez um comentário cultural que aproximou esta barriga da fome das mulheres com a lata de água na cabeça, de olhos apertados por causa do calor e tempo lento e a barriga do glamour anoréxico das topmodels.Houve toda uma construção do corpo a partir desta barriga para cada caso.Na cena de João Miguel, ficou a impressão de um olhar que comanda a cena mais que o movimento em si, o tempo dilatado, um calor excessivo também relacionado com esse tempo descolado da ação. A cena de Victor Hugo trouxe um dado novo, ou pelo menos um lugar de onde se olha novo na cena: exerceu o papel do masculino, do dono do chicote, do alto de seu cavalo, o olhar que como está do alto, tem de se direcionar para o chão, diferente do olhar construído noutras cenas que saía de baixo para cima.

Proposição cênica 2 – descrição de procedimentos

Ao pensarmos na fotografia como um artefato cultural chave para pensar na construção e midiatização dos papéis sociais e de gênero e deslocarmos esse sentido para as amareladas fotografias de família, tão presentes em qualquer casa, para pensar nas relações de parentesco, e nos mesmos papéis no sertão?
Parti da idéia de fotografia de família para propor que fossem feitas fotos em pequenos grupos atendendo a critérios estabelecidos por cada grupo e que pudéssemos conversar sobre as estratégias espaciais de composição fotográfica familiar. Seguem acima do corpo do texto todas as fotos.

Observações conclusivas ou perguntas-crise para fermentação de novas idéias

1)Sobre a proposição cênica 1: Mas, não somos todos nordestinos? Como estamos acostumados a nos pintar e a nos reconhecer? Como pintar determinadas tradições do Brasil sem falar dessas palmeiras, desses sabiás e desse povo pobre tão alegre? Ou como falar desse lugar deslocando esse sentido sem deixar de fazer parte desta comunidade simbólica Brasil?
2) Como suscitar um estado pessoal de identificação que leve as pessoas de modo claro a acessar subjetividades potencialmente cênicas?
3)Que técnicas, que imagens acessar para fomentar uma produção mais autobiográfica?
4)Como inserir vocalização nos experimentos?
5) Como avaliar a duração das aplicações?
6) Será que formalismo técnico não combina com conteúdos mais engendrados?
7) Como utilizar filmes ou material filmográfico como estratégia de composição em dança?